
Manari, cidade que em 2002, ficou conhecida por causa do IDH mais baixo do País, fronteira do sertão de Pernambuco, divisa com o estado de Alagoas.
Cenário rústico com um sol causticante, sede e seca... analfabetismo e pobreza rodeados de desprezo político e social. Fatores que impossibilitam o desenvolvimento social e econômico, mas não o suficiente para destoar o talento e arte da menina Valéria, que imune, salvou-se para contar e registrar a história em forma de poesia, crônica e experiência de vida.
Protagonista do documentário “PRO DIA NASCER FELIZ” de João Jardim, que retrata os problemas educacionais vividos por professores e alunos, do Norte ao Sul do Pais, Valéria mostrou ao Brasil seu talento apesar da miséria: o brasileiro só precisa de oportunidades, de atenção e auto-estima.
Em Manari, após a constatação de que a cidade estava com o mais baixo IDH do País, várias medidas governamentais foram tomadas para tentar resolver os problemas sérios de analfabetismo, pobreza e desnutrição. Paralelo às medidas políticas, econômicas e sociais, foi feito o documentário supra citado, filmado na própria cidade que desencadeou noticiários e muitos investimentos em infra-estrutura, educação e saúde.
No meio deste deserto de prosperidade, surge então uma flor em meio aos espinhos, exuberante, propagando perfume de esperança, arte e vida para sua comunidade e o resto do mundo.
Apresentamos Valéria Fagundes em versos e crônicas:
Protagonista do documentário “PRO DIA NASCER FELIZ” de João Jardim, que retrata os problemas educacionais vividos por professores e alunos, do Norte ao Sul do Pais, Valéria mostrou ao Brasil seu talento apesar da miséria: o brasileiro só precisa de oportunidades, de atenção e auto-estima.
Em Manari, após a constatação de que a cidade estava com o mais baixo IDH do País, várias medidas governamentais foram tomadas para tentar resolver os problemas sérios de analfabetismo, pobreza e desnutrição. Paralelo às medidas políticas, econômicas e sociais, foi feito o documentário supra citado, filmado na própria cidade que desencadeou noticiários e muitos investimentos em infra-estrutura, educação e saúde.
No meio deste deserto de prosperidade, surge então uma flor em meio aos espinhos, exuberante, propagando perfume de esperança, arte e vida para sua comunidade e o resto do mundo.
Apresentamos Valéria Fagundes em versos e crônicas:
Ainda me emociono quando recordo a escola
Por Valéria Fagundes
Eu sempre vivi de certa forma num universo à parte, numa realidade árdua e por vezes até paradoxal. Mas tenho sobretudo orgulho e demasiado carinho pelo sertão e principalmente pelos seres humanos que ali sobrevivem.
Tenho uma história de vida norteada por desafios e luta constante em favor de uma sociedade mais igualitária. Ainda me emociono quando recordo a escola onde estudei, quando lembro do tempo em que era possível correr, brincar, andar pelas ruas descalça.
Não era proibido vestir a liberdade e nem despir os anseios que se tinha no peito.
Só uma coisa ao certo me entristecia: minha escola não tinha uma estrutura física adequada, havia poucas salas, os professores não tinham muito recurso didático para trabalhar. E mesmo assim alguns conseguiam transmitir o que estava proposto.
Todos os alunos, de dentro das suas salas, podiam ver toda movimentação da rua, a escola era cercada apenas com arame farpado, na hora do intervalo jogávamos bola e comprávamos pirulito numa senhora gorda e mal humorada, os professores faziam piqueniques num único campo de futebol da cidade.
Nesse mesmo período, o Pnud - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - apontou Manari como a cidade de menor IDH ( Índice de Desenvolvimento Humano) do país.
A educação é por ventura um dos fatores que acarretam esse resultado vergonhoso. Manari também aparece no documentário "Pro Dia Nascer Feliz" , de João Jardim. Eu, por acaso, também tenho uma pequena participação neste documentário e evidencio, apesar de tudo, a esperança de um mundo mais justo.
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Minha vida tomou um outro rumo depois da participação neste filme, vejo como as pessoas ficam tomadas pela perplexidade quando o assistem, a angústia torna-se algo gritante.
Enquanto crianças e jovens continuam sem a educação, nossos representantes permanecem em seus castelos, cumprindo apenas as etiquetas da corte.
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Hoje tenho 19 anos e estou morando em Recife, trabalho num centro de ensino experimental, numa biblioteca e num espaço de mídia e educação.
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O que me deixa mais feliz é saber que graças ao filme a escola de Manari foi reconstruída. Sei que ainda há muito o que se fazer para mudar esse quadro educacional do país, sei também que a luta não vai ser fácil, mas estou disposta a tirar a educação desse casulo e fazer que ela chegue a todo o povo.
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Às vezes me bate uma saudade do sertão, um desejo de sair pelas ruas e cumprimentar as pessoas, de voltar à escola, rever minha família, meus amigos e professores. Mas lembro-me que é também por eles que estou aqui.
No filme de João Jardim, Valéria diz que seus colegas a acham diferente porque gosta de ler. No inesquecível final, declama um poema feito à maneira da Canção do Exílio de Gonçalves Dias.
Minha terra
Valéria Fagundes
Minha terra por ventura
merece tal descrição
lá a vida é menos dura
qualquer um lhe estende a mão.
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O céu é menos cinzento
lá não tem poluição
só existe um argumento
que me parte o coração.
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Ver o povo madrugar
e seguir para o roçado
mas se a chuva não chegar
perde-se o que foi plantado.
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Eu agora exilada
só me resta descrever
aqui não encontro nada
que me motive a viver.
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Mas falar da minha terra
ah, isso me dá prazer
E mesmo aqui tão distante
tenho algo a pedir.
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Quero agora, neste instante
voltar para Manari
pois eu não quero morrer
sem de lá me despedir.